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Entre a saudade e a culpa: os desafios emocionais da migração

Vivendo fora do Brasil, são muitos os conflitos emocionais que podem surgir. Numa conversa franca, de imigrante para imigrante, sabemos que essa é uma experiência única para cada pessoa, e nem sempre o que é vivido por uma pessoa, é vivido por outra na mesma intensidade e com a mesma medida. Mas hoje vamos nos concentrar em duas saudades muito comuns: a de casa e a saudade dos pets.

Saudade de casa

O sentimento de descompressão, de alívio de chegar em casa e relaxar. Um lugar que realmente pode ser chamado de lar. A materialização do conforto e da segurança, a calma de estar em um lugar onde você cria as regras e as segue, quando quer. O caminho para tornar um espaço físico em um lar esbarra na possibilidade de personalização do local. Onde ficará o sofá? Tem como pendurar aquele quadro? Qual será a cor da parede? Teremos uma estante de livros? Mesa de centro clássica, retrô ou ousada? Um gancho para rede, seria pedir demais?

É nesses pequenos detalhes que colocamos um pouco de nós, do que somos e de como pensamos, no nosso ambiente. Quem nunca mudou uma planta de lugar (aê Cassia Eller!) e se sentiu mais pertencente a um cômodo?

Mas quando a propriedade não é nossa, quando o espaço é compartilhado, ou quando a grana simplesmente não está sobrando, acabamos ficando da forma como está. Da forma como outra pessoa definiu, ou simplesmente como os anos foram passando e o cômodo “foi ficando”. Não escolhemos as cores, os materiais, o posicionamento da mobília... não escolhemos o bairro, a vizinhança, o barulho (ou silêncio mortal)! E aquele lugar, tão sonhado e idealizado, se torna simplesmente um novo endereço, um código postal. Não nos recarrega, não nos energiza, não nos conecta com quem somos. Ah, que saudade de chegar em casa, não nessa, mas naquela casa onde eu morava, naquela cozinha de onde exalavam-se os mais variados aromas de temperos, aquele quintal onde tantas vezes reuni amigos e família, a churrasqueira difícil de ligar e trabalhosa para limpar, mas que agora faz uma falta... A culpa bate na porta e te pergunta: Será que está valendo a pena?

Saudade dos pets

Nem sempre existe a possibilidade ou nem sempre é viável trazer um pet para o seu novo lar. E, nesses casos, o que fica é um vazio. Sabemos que eles, (principalmente cães e gatos) sentirão nossa falta, mas sabemos que a forma como expressam essa falta é diferente. O cheiro, o aconchego, a festa que fazem quando chegamos em casa (ok, alguns felinos gostam de saber que chegamos para poder nos ignorar com sucesso) e a sensação de ser tudo para alguém.

O cuidado na escolha de um segundo lar para os bichinhos não garante certezas. A culpa pode vir, trazendo junto várias perguntas: Será que ele está sendo cuidado da forma como eu cuidava? Será que está gostando da nova rotina? Será que ele ou ela esqueceu de mim?

De repente tudo muda. A nova rotina entra, milhares de prioridades tomam a frente, e as chamadas de vídeo passam a ser a forma de retomar contato com os amigos de 4 patas. O cheiro e o afago são trocados pelas perguntas atentas. As ligações logo dão lugar às fotos. E pouco a pouco, vamos entendendo que um pedaço do seu coração ficou do outro lado do oceano.

Lidar com a saudade não tem receita, mas cada pessoa pode trilhar seu caminho. Uma chamada de vídeo, uma música, um pão de queijo improvisado. Uma mantinha, daquela cor que gostamos, colocada sob o sofá. Um porta retrato, ou o fundo de tela do celular, com a foto do nosso bichinho. Cada saudade encontra o seu jeito de entrar e de ficar no nosso coração.

Quando a adaptação se torna pesada demais para se carregar sozinho(a), a terapia pode ser de ajuda. Falar em português com quem entende o que você está passando pode ser fundamental para entender melhor seus medos, culpas e saudades. Se dê essa chance! Estamos aqui de corações abertos.

 
 
 

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