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Quando tudo muda, são os seus valores que mostram o caminho

Existe um momento na experiência migratória sobre o qual quase ninguém fala. Não é o dia da despedida no aeroporto. Nem a chegada ao novo país. É o dia em que você percebe que já não vive como vivia antes, mas também ainda não se sente completamente parte do lugar onde está. Você atravessa as ruas, trabalha, resolve documentos, aprende novas palavras, conversa por chamadas de vídeo com quem ficou no Brasil. A vida continua acontecendo. Ainda assim, em algum lugar dentro de você, surge uma pergunta silenciosa:

 

“Quem estou me tornando?”

 

Muitas pessoas tentam responder a essa pergunta olhando para aquilo que perderam. A profissão que exercia. A rede de amigos. Os almoços de família. O reconhecimento que recebia. A sensação de saber exatamente como as coisas funcionavam. Essas perdas são reais. E merecem ser reconhecidas. Mas talvez exista outra pergunta igualmente importante:

 

“O que permanece em mim, mesmo quando tantas coisas mudaram?”

 

Quando os papéis sociais mudam, os valores permanecem. Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), uma das abordagens da chamada terceira onda das terapias cognitivas, existe um conceito central: valores.

Valores não são metas a serem concluídas. São direções que escolhemos para nossa vida. Uma pessoa pode valorizar o cuidado com a família. Outra, a honestidade. Outra, o aprendizado, a espiritualidade, a amizade, a liberdade, a generosidade ou a contribuição para o mundo.

Quando alguém imigra, muitos papéis sociais podem mudar rapidamente. Você talvez deixe de ser reconhecido pela carreira que tinha, pela posição que ocupava ou pelas relações construídas durante anos. Isso pode gerar insegurança, tristeza e uma sensação de desenraizamento. A ACT não propõe apagar essas emoções. Pelo contrário. Ela nos convida a perceber que, por trás dos papéis que mudam, ainda existe uma pessoa capaz de viver seus valores.

Talvez sua rotina seja diferente hoje. Mas o valor do cuidado ainda pode aparecer numa ligação para a família. O valor do aprendizado pode surgir ao enfrentar uma nova língua. O valor da coragem pode estar presente em cada pequeno passo dado em direção a uma vida que ainda está sendo construída. Os valores funcionam como uma bússola. Eles não eliminam a saudade, mas ajudam a encontrar direção mesmo quando o caminho parece incerto.

Muitos imigrantes fazem um esforço enorme para parecer fortes o tempo inteiro. Dizem para si mesmos que não deveriam sentir falta do Brasil. Evitam falar sobre tristeza. Tentam seguir em frente sem olhar para o que ficou para trás. Na ACT, chamamos isso de evitação experiencial: a tentativa de afastar emoções, pensamentos ou lembranças dolorosas a qualquer custo. O problema é que, frequentemente, quanto mais lutamos para não sentir, mais energia gastamos nessa batalha interna.

Acolher a própria experiência não significa desistir. Significa reconhecer:

“Isso é difícil para mim.”

“Sinto saudade.”

“Estou vivendo muitas mudanças.”

“Ainda estou aprendendo a encontrar meu lugar.”

Existe força nessa honestidade.

Quando deixamos de lutar contra cada emoção, sobra mais espaço para investir naquilo que realmente importa.

Pertencer não é deixar de ser quem você é. Algumas pessoas acreditam que precisam abandonar partes de sua identidade para serem aceitas no novo país. Outras se agarram tão fortemente ao passado que têm dificuldade de criar qualquer vínculo novo. Entre esses extremos existe um caminho mais gentil.

Pertencimento não nasce quando você deixa de ser brasileiro. Pertencimento nasce quando você consegue ser inteiro onde está. É possível preservar memórias, sotaques, receitas, histórias e afetos enquanto constrói novas experiências, novas amizades e novos significados. Seu passado não precisa competir com o seu futuro. Eles podem caminhar juntos.

Mesmo com a coragem de construir novos vínculos depois de muitas despedidas, é natural que o coração fique mais cauteloso. Algumas pessoas evitam se aproximar porque têm medo de perder novamente. Outras acreditam que nunca encontrarão relações tão profundas quanto as que deixaram no Brasil.

A Terapia de Aceitação e Compromisso oferece uma pergunta diferente:

“Que tipo de pessoa eu desejo ser nos meus relacionamentos,

 mesmo na presença do medo?”

Talvez a resposta seja:

  • alguém disponível para ouvir;

  • alguém capaz de pedir ajuda;

  • alguém que demonstra afeto;

  • alguém que constrói confiança aos poucos;

  • alguém aberto a conhecer novas pessoas sem abandonar os vínculos antigos.

Novos relacionamentos não começam quando a insegurança desaparece. Eles começam quando os seus valores se tornam maiores do que a insegurança. Uma conversa após um encontro da comunidade, um convite para um café, uma mensagem enviada para alguém com quem você se identificou. Pequenos gestos podem ser os primeiros passos para uma nova rede de apoio.

Inteligência emocional no processo migratório também deve ser mencionada. A experiência migratória costuma trazer emoções intensas e, às vezes, contraditórias. É possível sentir gratidão e saudade no mesmo dia. Esperança e medo. Orgulho e cansaço. Alegria por uma conquista e tristeza pela distância da família. Inteligência emocional não significa controlar perfeitamente tudo o que sentimos. Significa reconhecer as emoções, compreendê-las e escolher como agir de forma coerente com os nossos valores.

Antes de reagir impulsivamente, pode ser útil perguntar:

  • O que estou sentindo agora?

  • O que essa emoção está tentando me mostrar?

  • Qual atitude me aproxima da pessoa que desejo ser?

Essas pequenas pausas ajudam a fortalecer a segurança emocional e a qualidade dos relacionamentos, enquanto a família também está se reinventando A imigração transforma não apenas indivíduos, mas famílias inteiras. Casais precisam renegociar responsabilidades. Pais aprendem a educar filhos entre culturas diferentes. Crianças e adolescentes podem adaptar-se em ritmos distintos.

Em vez de buscar uma família “perfeita”, a ACT convida a cultivar uma família presente, capaz de conversar sobre dificuldades, reconhecer emoções e apoiar uns aos outros durante a adaptação. Muitas vezes, a conexão cresce justamente quando existe espaço para dizer:

“Isso também está sendo difícil para mim.”

Existe uma frase que muitas pessoas descobrem ao longo da imigração: Algo ficou para trás para que algo novo pudesse começar. Mas começar algo novo não exige apagar a própria história. A pessoa que atravessou o oceano continua levando consigo experiências, aprendizados, afetos e valores que ajudaram a chegar até aqui. Talvez você ainda esteja descobrindo como será sua vida neste novo país. Talvez ainda existam dúvidas, saudades e dias difíceis. Ainda assim, seus valores continuam disponíveis.

Eles podem orientar suas escolhas, fortalecer seus relacionamentos, ampliar seu senso de pertencimento e ajudá-lo a construir uma vida com significado, passo a passo. Porque a imigração pode mudar o país onde você vive, mas não precisa mudar aquilo que dá sentido à sua vida.

 

Texto escrito pela Psicóloga Karina Beatriz Gangi Lopes de Oliveira, CRP 06/176588

 
 
 

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