Resiliência longe de casa: o que a ciência revela sobre a força e o sofrimento do imigrante brasileiro
- josi miranda
- há 2 dias
- 4 min de leitura

Deixar o Brasil para construir uma vida em outro país costuma ser contado como uma história de coragem. E, de fato, é. Mas existe uma parte dessa história que nem sempre aparece nas fotografias, nas conquistas profissionais ou nas mensagens dizendo: “estou vencendo no exterior”. É a parte em que ser forte começa a cansar.
A resiliência do imigrante brasileiro não significa simplesmente “aguentar tudo”. Significa conseguir se adaptar, reconstruir referências, preservar a própria identidade e encontrar recursos psicológicos para continuar vivendo diante de mudanças profundas. E a ciência vem mostrando que essa adaptação é muito mais complexa do que simplesmente aprender um novo idioma, conseguir um emprego ou se acostumar ao clima.
O imigrante pode estar funcionando e ainda assim não estar bem
Uma pesquisa* publicada em 2026 sobre a experiência de mulheres brasileiras imigrantes encontrou sofrimento psicológico em 28,6% dos participantes brasileiros avaliados, dois anos após a pandemia de COVID-19, com maior frequência de sintomas depressivos entre as mulheres. O estudo chama atenção justamente para a complexidade da trajetória migratória e para os impactos que podem permanecer mesmo depois da fase inicial da mudança.
Isso nos ajuda a compreender algo importante: adaptar-se não é a mesma coisa que estar emocionalmente bem. É possível trabalhar, estudar, pagar as contas, aprender o idioma, cuidar dos filhos e publicar fotos felizes, enquanto internamente existe solidão, ansiedade, insegurança, saudade e a sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum.
Resiliência não é ausência de sofrimento
Um estudo** multicêntrico com 403 migrantes residentes no Brasil, Espanha e Portugal investigou justamente a relação entre estresse percebido e resiliência. Os resultados reforçam que diferentes fatores estão relacionados tanto aos níveis de estresse quanto à capacidade de resiliência dos migrantes.
Isso muda a forma como devemos enxergar o imigrante. Não estamos falando de alguém que simplesmente precisa “ser forte”. Estamos falando de uma pessoa que precisa reconstruir sua vida enquanto lida, muitas vezes simultaneamente, com mudanças culturais, linguísticas, financeiras, familiares e sociais. E quanto maior a sobrecarga, maior a importância de recursos de proteção psicológica e de uma rede de apoio.
O que acontece quando a pessoa precisa ser forte o tempo inteiro?
Existe uma frase que escuto com frequência na clínica: “Eu consegui chegar até aqui. Então não deveria estar me sentindo assim”. Mas uma coisa não invalida a outra. Você pode ter sido corajoso para emigrar e ainda sentir medo. Pode ter conquistado estabilidade financeira e continuar sentindo saudade. Pode falar o idioma e ainda se sentir estrangeiro. Pode amar a vida que construiu e, ao mesmo tempo, sentir falta da vida que deixou. Pode ser resiliente e precisar de ajuda. Essa contradição faz parte da experiência migratória. Parece até filosófico né?
Pesquisas sobre saúde mental de imigrantes também apontam fatores como perda de identidade cultural e linguística, dificuldades de relacionamento, precariedade financeira, discriminação, xenofobia, isolamento e ausência de rede de apoio como elementos capazes de aumentar o sofrimento psicológico. Ao mesmo tempo, família, comunidade e suporte social aparecem como importantes fatores de proteção.
O brasileiro não deixa sua história no aeroporto
Quando uma pessoa migra, ela não leva apenas uma mala. Leva sua história. Leva sua forma de se relacionar, seus valores, suas expectativas, suas referências familiares, sua língua, seus costumes e a imagem que construiu de si mesma. Por isso, a adaptação não significa apagar quem você era para conseguir caber em um novo país. Resiliência também é aprender a construir uma nova versão de si sem precisar destruir a anterior. É possível pertencer ao novo lugar sem abandonar suas raízes. É possível mudar sem deixar de se reconhecer.
E quando a resiliência vira sobrevivência?
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes. Existe uma diferença entre desenvolver recursos para enfrentar uma mudança e viver permanentemente em estado de alerta. Quando a pessoa passa meses ou anos funcionando no limite, podem surgir ansiedade intensa, irritabilidade, alterações no sono, isolamento, queda da autoestima, sensação de fracasso, exaustão emocional e dificuldade para aproveitar aquilo que conquistou. Por isso, cuidar da saúde mental durante a imigração não deveria ser visto como sinal de fraqueza. É uma estratégia de adaptação.
O próprio Ministério da Saúde reconhece que a saúde mental é influenciada por fatores sociais, econômicos, culturais e ambientais, e não apenas por características individuais. Ou seja: compreender o sofrimento do imigrante exige olhar para a pessoa e também para o contexto em que ela está tentando reconstruir a própria vida.
Talvez você não precise ser mais forte. Talvez precise ser acolhido.
Na psicoterapia, nosso trabalho com brasileiros que vivem fora do país parte justamente dessa compreensão. Não se trata de ensinar alguém a “aguentar mais”. Trata-se de compreender o que está acontecendo, identificar padrões de pensamento e comportamento, desenvolver estratégias de enfrentamento mais saudáveis e construir uma relação mais equilibrada com essa nova fase da vida.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, trabalhamos, entre outros aspectos, pensamentos, emoções e comportamentos que podem estar mantendo ciclos de ansiedade, insegurança, culpa ou autocrítica. Porque morar fora pode ser uma grande conquista. Mas você não precisa transformar essa conquista em uma prova diária de resistência.
Se você vive no exterior e sente que, apesar de ter construído uma nova vida, emocionalmente ainda está tentando encontrar o seu lugar, talvez seja hora de olhar para essa experiência com mais cuidado. Você não precisa enfrentar tudo sozinho.
Texto escrito pela Psicóloga Karina Beatriz Gangi Lopes de Oliveira, CRP 06/176588.
Referências:
*: Alarcão, V., Candeias, P., Stefanovska-Petkovska, M., Pintassilgo, S., Machado, F. L., Virgolino, A., & Santos, O. (2023). Mental Health and Well-Being of Migrant Populations in Portugal Two Years after the COVID-19 Pandemic. Behavioral Sciences, 13(5), 422. https://doi.org/10.3390/bs13050422
**: Pinheiro, I., Rusu, M. H., Nogueira, C., & Topa, J. (2026). Between Borders and Fractures: Journey and Mental Health of Brazilian Immigrant Women in Portugal. Social Sciences, 15(2), 128. https://doi.org/10.3390/socsci15020128
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